Brasileiros têm de entender que estudar não é chato; chato é ser burro.
Brasileiros têm de entender que estudar não é
chato; chato é ser burro
Pedro Bandeira
A história da educação no Brasil é um
acúmulo de omissões e até mesmo de ações propositais que resultaram numa
situação de extrema desigualdade social, com um analfabetismo ou um
analfabetismo funcional endêmicos, um vergonhoso estado geral de ignorância e
de desprezo pelo conhecimento.
Para quem analisar nossa história,
fica claro que a proibição do voto aos analfabetos sempre foi intencional, pois
o governante somente tinha de prestar satisfações a uma minoria privilegiada,
da qual esse mesmo governante provinha. Como a maioria era analfabeta, e não
tinha voz nem voto, o governante só poderia ser alijado do poder pela ínfima
minoria para quem governava, e podia desprezar solenemente as necessidades da
imensa maioria dos brasileiros, aumentando assim, ano a ano, século a século, o
abismo social que nos define.
A exclusão brasileira foi criada
propositalmente pela reserva do acesso à educação somente a uma parcela dos
brasileiros, porque só há uma riqueza a distribuir, e essa riqueza é o acesso a
uma educação de qualidade.
Felizmente, depois de três séculos de
domínio e de espoliação colonial, mais quase outros dois séculos de manutenção
do mesmo estado de exclusão, primeiro imperial, depois de republiquetas e/ou de
ditaduras em que a reserva da educação para poucos continuava a ser usada com
fator de “proteção” da elite, o Brasil vem tentando construir um estado
democrático há cerca de trinta anos.
Pela primeira vez em nossa história,
o voto foi estendido a todos os brasileiros, e o direito à escolarização
tornou-se universal, com a oferta de vagas no ensino fundamental a todas as
nossas crianças. Agora, em pleno século 21, consolidar essa democracia
afinal conquistada é um trabalho hercúleo, uma obrigação de todos os
brasileiros. Sabemos que, mais que nunca, o passaporte para um futuro feliz e
realizado é o acesso a uma educação de qualidade.
Agora, finalmente, conseguimos
oferecer vagas na escola pública para cada criança, mas essa cultura do atraso
faz com que os despossuídos encarem a frequência escolar não como um direito
libertador, mas como uma obrigação. Tantos séculos de atraso acabaram por fazer
com que a maioria de nós, os despossuídos da história, sequer tenhamos ganas de
reivindicar nosso direito à educação.
Muitas famílias enviam seus filhos à
escola de má vontade, alguns somente para cumprir as exigências das
bolsas-família, e as próprias crianças festejam quando algum professor falta à
aula e elas podem ficar brincando à vontade no recreio. Séculos de exclusão não
criaram um anseio por este direito por parte dos próprios excluídos!
A maioria dos pais dessas crianças
está disposta a fazer sacrifícios para comprar um tênis de grife para seu
filho, mas protesta quando tem de gastar qualquer quantia para comprar-lhe um
livrinho sequer. Isso significa que a família brasileira acha mais importante
investir no pé do que na cabeça do seu próprio filho…
Como reverter esse quadro? Como
incutir na consciência das famílias que a felicidade e a riqueza só podem ser
conquistadas pelo conhecimento, pelo acesso à ciência, à tecnologia? Como
poderemos obrigar o brasileiro a ser feliz?
Acredito que obrigar é impossível. Enquanto
tentarmos enfiar o conhecimento goela abaixo de nossas crianças como um
purgante, utilizando as punições, as suspensões e as reprovações como
instrumentos de persuasão, só teremos fracassos pela frente.
Nossa escola tem de ser fascinante,
atraente, cheirosa, utilizando como fator de atração a literatura infantil e
juvenil hoje produzida por centenas de ótimos autores, para que os sonhos e a
alegria desses livros possam fazer com que os alunos anseiem por estar na
escola, não comemorem os feriados. Não basta que tenhamos criado vagas para
todo mundo. É preciso que a porta da sala de aula seja o pórtico da felicidade.
Os brasileiros têm de compreender que
estudar não é chato; chato é ser burro!

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